Se eu tiver que morrer

Se eu tiver que morrer

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Poucos meses antes do assassinato de Refaat Alareer, o ministro de Defesa israelense, Yoav Gallant, disse que Israel lutava contra "animais humanos"; já o ministro das Finanças do país, Bezalel Smotrich, declarou que o povo palestino é "inventado" — negando sua existência histórica, sua cultura milenar. Em outubro daquele mesmo ano, 2023, Benjamin Netanyahu citou o versículo bíblico sobre Amaleque, povo que Deus ordenou exterminar até o último: “homens e mulheres, crianças e bebês, bois e ovelhas, camelos e jumentos”. Por trás de todo genocídio sempre há um processo patológico de desumanização, transformando uma sociedade inteira, como a Palestina, em uma ameaça abstrata e irracional, como se movida por ódio e fanatismo: uma doença que deve ser eliminada, higienizada. De acordo com relatórios de agências da ONU, mais de 50.000 crianças foram mortas ou gravemente feridas na Faixa de Gaza, desde 7 de outubro de 2023. Esses são números oficiais, mas, debaixo das cerca de 68 milhões de toneladas de escombros, o número chega a ser inimaginável. Nem a retórica, tampouco as operações genocidárias e de limpeza étnica do regime sionista de Israel são novidades e é precisamente contra essas ações orquestradas de apagamento – físico e cultural - que se insurgia Refaat Alareer. Depois que sua casa foi destruída, em 2014, Alareer procurou por trabalhos de seus estudantes entre os escombros. Ali estavam histórias que precisavam encontrar leitores, possibilidades de futuro que ele se empenhava em preservar. Esse foi o embrião da iniciativa We Are Not Numbers, da qual foi um dos fundadores. O nome — “Não somos números” — expressa uma convicção que permeou sua trajetória, encerrada precocemente e de forma covarde, após semanas de ameaças de morte recebidas online e por telefone de contas israelenses. Nada do que ocorre e vem ocorrendo na Palestina há mais de 70 anos é silencioso — a não ser a indiferença dos que testemunham o genocídio e fingem não o ver, pois seus olhos são coniventes com a supremacia de quem o pratica. Abraham Joshua Heschel, rabino, filósofo e ativista nascido na Polônia e naturalizado americano, dizia que a indiferença ao mal é mais insidiosa do que o próprio mal. É uma justificação silenciosa que confere ao mal aceitabilidade na sociedade. Refaat Alareer foi assassinado por Israel em Gaza, na Palestina, em 6 de dezembro de 2023. Tinha 44 anos. O bombardeio matou também seu irmão, sua irmã e quatro sobrinhos. Sua morte interrompeu uma vida dedicada à literatura, ao ensino e à defesa do direito dos palestinos de contar a própria história. Nas salas de aula, nos livros e nas intervenções públicas, Alareer trabalhou para que a experiência de sua gente fosse conhecida com a complexidade que os relatos sobre a Palestina tantas vezes lhe recusam. Este livro preserva, ao reunir diversos escritos publicados nos últimos anos, a voz e o testemunho de Refaat Alareer, para que sua vida não seja reduzida ao crime que a interrompeu — a um número. Simone Cosac Naify na orelha do livro.

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