Poemas
[...] A montagem da antologia talvez construa a seu modo a série O romance dos massacres [1974], reconfigurando um procedimento caro a Pasolini, o qual “articula fatos mesmos distantes, que reúne os cacos desorganizados e fragmentários de todo um quadro político coerente.” Ou como lemos no poema Balada das mães: “Eu sou uma força do Passado.” Jon Halliday, durante uma entrevista com Pasolini, feita em Roma, em 1968, relembra a crítica de Franco Fortini, que via na poesia de Pasolini uma relação entre a potência da poesia moderna e o conteúdo ideológico que pode ser entendido como já dado, e aquela de Alberto Asor Rosa, que via em sua poesia uma fórmula caracterizada por uma nova ideologia que se enxerta em formas tradicionais. Por fim, pergunta ao escritor: “Por qual motivo expressaram opiniões tão contraditórias, segundo você?”. Pasolini transforma a contradição em ambivalência. Diz ele: “Para mim, ambos têm e não têm razão. Todos os dois são justificáveis. Eu não sou um inventor de ideologias. Não sou um pensador e jamais aspirei sê-lo. Às vezes, dentro de um contexto de uma ideologia me surge alguma intuição, e assim me ocorreu de preceder os ideólogos de profissão. E estilisticamente sou um pasticheur. Uso o material estilístico mais disparatado: poesia dialetal, poesia decadente, certas tentativas de poesia socialista.” O complemento de sua resposta traz algo que desarticula qualquer leitura formalista acerca de sua poesia: “Aquilo que conta é o grau de violência e de intensidade, e isso investe tanto a forma quanto os estilos, e também a ideologia. O que conta é a profundidade do sentimento, a paixão que ponho nas coisas; não sou, portanto, nem a novidade dos conteúdos, nem a novidade da forma.” Davi Pessoa, Antologia reúne poemas de Pier Paolo Pasolini, crítica à primeira edição deste livro em O Globo, out. 2015.
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